28.5.10

tao

Pra quê, bem te digo, já que estas palavras me saltam aos gritos: todas as vezes que escrevo é a urgência do transbordamento que invade ao contrário a minha cabeça, me salta nos dedos em palavras que não têm a coragem de escapar pela boca. O espaço do medo é o maior aconchego da covardia que cala, na boca, na sala, e o quarto acolchoado é o berço da escrita, indomada, torcida. Eu escrevo porque eu não falo. Eu escuto porque eu me calo diante do outro. Eu contenho até não caber mais, num cinismo de concordância e de paz, mas por dentro me sinto o lobo que a ovelha de fora tenta calar.

Quem é covarde, quem é corajoso? O que é certo e o que é errado? De onde vêm os limites do mundo? E por que eu os nego, apago, diluo? Nem bem sei como cheguei a esse ponto, mas encontro na liquefação dos conceitos uma paz decomposta, misteriosa, aprazível, que me aquieta e no entanto me frustra: porque quanto mais a tento escrever, mais a percebo indizível.

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